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Há dez mil anos atrás
Para mim tanto faz...
Agora dez mil anos à frente
Enquanto ora leem ou ouvem minha
[efêmera voz
Com os seus breves olhos-ouvidos
É o que importa a nós
E daqui a dez mil anos para a frente
Quando a minha lacônica voz
Não for mais que um vento soprando
Na fronte dum outro poeta
Quando o nosso mundo não passar
[de um desmundo
E talvez por isso menos imundo
Que um futuro poeta (sem saber, ainda,
[do seu dom)
Pegue um giz ou carvão ou pena com tinta
E ouvindo o silvar de minha voz
Recomece a labuta que é ser poeta
E que todos os poetas que já pisaram no mundo
Vendo a sua dificuldade venham reencarnar
Em seu corpo (crentes ou não) de último poeta
Para um último poema passaremos
Setenta e sete anos a escrever e não
Dormiremos um dia sequer
Então quando o último poeta disser-nos:
- Tempo não mais há.
Ficaremos sentados no cume da mais
[alta montanha
E quando o ar for cessar do seu peito ele nos
[dirá:
- Muito obrigado, poetas, por mostrarem-
[-me
que os humanos já foram seres huma-
[nos.
Antes que o seu corpo e nós atinjamos
JUNTOS
O MAR.
dos Silva e Santos
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